Nostalgia Nuclear
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Bomba Tsar. Quarenta megatons de potência, explodida na Nova Zembla. Vinte mil vezes mais poderosa que a jogada sobre Hiroshima.

Podemos ter nostalgia por objetos, lugares e circunstâncias felizes por que passamos e que, também pelo grau de idealização que sobrepomos a eles, sabemos serem impossíveis de recuperar.

Dificilmente alguém pensaria num trauma sob o aspecto de saudade ou nostalgia, a não ser que tempo suficiente tenha passado.

Mãe e dois filhos morreram afogados num lago onde hoje só há deserto.
Mãe e dois filhos morreram afogados num lago onde hoje só há deserto.

Arqueólogos, escavando cemitérios de 5.000 anos, encontram um casal de mãos dadas e o sofrimento daquelas mortes, por maior que tenha sido para quem morreu e para aqueles próximos deles no passado, se transforma em um sentimento com certeza terno — e talvez até romântico.

O sofrimento já está totalmente apaziguado e o que resta é o gesto carinhoso de quem dispôs, entre flores, os corpos de pessoas próximas que morreram ao mesmo tempo.

Limpeza da área contaminada pelo Césio 137 em Goiânia, que produziu 13.500 toneladas de lixo radioativo.
Limpeza da área contaminada pelo Césio 137 em Goiânia, que produziu 13.500 toneladas de lixo radioativo.

Quando inventei a expressão “nostalgia nuclear”, é claro que percebi um potencial de ironia macabra, talvez um pouco como o turismo que hoje existe em cidades evacuadas após acidentes nucleares.

Afinal, que tipo vicioso de saudades poderíamos ter do acidente em Goiânia, onde populares encontraram no lixo uma máquina de radioterapia, violaram o lacre e intoxicaram a si próprios, dezenas de pessoas e uma grande área que precisou ser cuidadosamente limpa? Que tipo de saudades poderíamos ter de Hiroshima ou Chernobyl? Mas será que a nostalgia é apenas da felicidade passada?

Quando assisti o episódio de Mad Men em que Don Draper explica que “nostalgia, em grego, é literalmente ‘a dor de uma ferida antiga’”, acreditei nisso, porque fazia sentido, mesmo a etimologia sendo fictícia.

Filme em que Becquerel percebeu pela primeira vez que o Urânio tinha uma propriedade peculiar.
Filme em que Becquerel percebeu pela primeira vez que o Urânio tinha uma propriedade peculiar.

Toda grande tragédia carrega consigo também a nostalgia pelo momento anterior, de ingenuidade e total desconhecimento do que viria pela frente. Becquerel e Marie Curie, pioneiros da descoberta da radioatividade, morreram ambos intoxicados por ela. Os cadernos e até o livro de receitas culinárias de Marie Curie mesmo hoje, mais de 100 anos depois, ainda estão contaminados, só podendo ser manuseados com aparato especial.

A cientista refinou quase que totalmente sozinha três toneladas de pechblenda para obter algumas gramas do elemento rádio (Ra) – que brilhava no escuro de tão radioativo, mas que ela, ainda assim, ignorante dos efeitos disso sobre sua saúde, carregava num vidrinho no bolso da camisa.

Obs: sob certo aspecto, isso justifica e desculpa em muito a ignorância dos populares em Goiânia, fascinados infantilmente pelo brilho verde do Césio 137 que, claro, nunca deveria estar perdido num lixão de qualquer forma.

Considerando tudo, ela foi bem sortuda de viver até os 67 anos de idade.
Considerando tudo, ela foi bem sortuda de viver até os 67 anos de idade.

Vítima de uma leucemia comum em intoxicação por raios gama, muito embora naquele momento (década de 30) já se desconfiasse da toxicidade da radiação, Marie Curie negou até o fim uma relação causal entre sua doença e as substâncias que tanto amava.

E com ela começa certa hubris trágica que envolve boa parte do pensamento científico sobre a radiação — que toma uns golpes de tempos em tempos, parece diminuir, mas sempre volta — talvez um pouco amarrotada e menos poderosa, mas ainda assim bastante perigosa.


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