
{"id":10534,"date":"2025-12-20T01:32:48","date_gmt":"2025-12-20T04:32:48","guid":{"rendered":"https:\/\/7ports.com.br\/?p=10534"},"modified":"2025-12-26T05:54:57","modified_gmt":"2025-12-26T08:54:57","slug":"sus-o-fracasso-anunciado-da-centralizacao-estatal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/7ports.com.br\/?p=10534","title":{"rendered":"SUS: O FRACASSO ANUNCIADO DA CENTRALIZA\u00c7\u00c3O ESTATAL"},"content":{"rendered":"\n<h2 class=\"wp-block-heading\">EDITORIAL: Candido Gomes &#8211; 20\/12\/2025<\/h2>\n\n\n\n<p>O <strong>Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS)<\/strong> \u00e9 apresentado, desde a Constitui\u00e7\u00e3o de <strong>1988<\/strong>, como uma das maiores conquistas sociais da Rep\u00fablica. Na pr\u00e1tica, por\u00e9m, tornou-se um <strong>s\u00edmbolo do fracasso da centraliza\u00e7\u00e3o estatal brasileira<\/strong>. O discurso \u00e9 generoso; a realidade, cruel. Filas intermin\u00e1veis, falta de m\u00e9dicos, hospitais sucateados e m\u00e1 gest\u00e3o transformaram o direito constitucional \u00e0 sa\u00fade em uma promessa permanentemente adiada.<\/p>\n\n\n\n<p>O SUS n\u00e3o fracassou por falta de recursos ou de boas inten\u00e7\u00f5es. Fracassou porque foi concebido dentro de uma <strong>l\u00f3gica republicana centralizadora<\/strong>, que ignora a hist\u00f3ria institucional do pa\u00eds e despreza a efici\u00eancia da autonomia administrativa.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><strong>QUANDO A SA\u00daDE FUNCIONAVA (1930\u20131974)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Nasci em 1950 e convivi, como testemunha direta at\u00e9 1974, com um per\u00edodo em que os sistemas de sa\u00fade e previd\u00eancia n\u00e3o eram unificados \u2014 e justamente por isso funcionavam melhor.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O atendimento era organizado por <strong>categoria profissional<\/strong> e por <strong>institui\u00e7\u00f5es aut\u00f4nomas<\/strong>, com responsabilidade clara e gest\u00e3o pr\u00f3xima do usu\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Havia:<\/p>\n\n\n\n<ul>\n<li>o <strong>Hospital dos Servidores do Estado<\/strong>, respons\u00e1vel pelo atendimento aos servidores p\u00fablicos civis;<\/li>\n\n\n\n<li>os hospitais militares (<strong>HCE, HCM e HCA<\/strong>), destinados ao Ex\u00e9rcito, \u00e0 Marinha e \u00e0 Aeron\u00e1utica;<\/li>\n\n\n\n<li>os <strong>Institutos de Aposentadorias e Pens\u00f5es (IAPs)<\/strong> \u2014 como o <strong>IAPC<\/strong> (comerci\u00e1rios), o <strong>IAPI<\/strong> (industri\u00e1rios) e o <strong>IAPB<\/strong> (banc\u00e1rios).<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>Criadas principalmente entre as d\u00e9cadas de <strong>1930 e 1950<\/strong>, essas institui\u00e7\u00f5es acumulavam fun\u00e7\u00f5es de <strong>assist\u00eancia m\u00e9dica e previd\u00eancia social<\/strong>, com <strong>autonomia administrativa e financeira<\/strong>. Prestavam servi\u00e7os ambulatoriais e hospitalares e respondiam diretamente aos seus segurados. Eram centenas de estruturas espalhadas pelo pa\u00eds. Imperfeitas, sim \u2014 mas <strong>funcionais<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><strong>A DITADURA, A UNIFICA\u00c7\u00c3O E O ERRO ESTRAT\u00c9GICO<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Com o golpe de <strong>1964<\/strong>, consolidou-se a ideia de que a <strong>unifica\u00e7\u00e3o administrativa reduziria fraudes e corrup\u00e7\u00e3o<\/strong>. O resultado foi o oposto.<\/p>\n\n\n\n<ul>\n<li><strong>1966<\/strong>: extin\u00e7\u00e3o dos IAPs e cria\u00e7\u00e3o do <strong>INPS<\/strong><\/li>\n\n\n\n<li><strong>1977<\/strong>: cria\u00e7\u00e3o do <strong>INAMPS<\/strong>, centralizando a assist\u00eancia m\u00e9dica<\/li>\n\n\n\n<li><strong>1988<\/strong>: a Constitui\u00e7\u00e3o Federal institui o <strong>SUS<\/strong><\/li>\n\n\n\n<li><strong>1990<\/strong>: consolida\u00e7\u00e3o do <strong>INSS<\/strong> e regulamenta\u00e7\u00e3o do SUS<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>A l\u00f3gica era simples \u2014 e profundamente equivocada: concentrar para controlar. Na pr\u00e1tica, <strong>concentraram-se poder, or\u00e7amento e oportunidades de desvio<\/strong>. Em vez de combater a corrup\u00e7\u00e3o, o Estado ampliou sua escala.<\/p>\n\n\n\n<p>Como no ditado popular, <strong>em vez de matar os carrapatos, matou-se a vaca<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><strong>A CORRUP\u00c7\u00c3O COMO M\u00c9TODO<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A corrup\u00e7\u00e3o n\u00e3o desapareceu; apenas mudou de patamar. Saiu do n\u00edvel local e atingiu o <strong>n\u00edvel sist\u00eamico<\/strong>. Esc\u00e2ndalos envolvendo o <strong>INSS<\/strong>, hospitais p\u00fablicos, contratos superfaturados e organiza\u00e7\u00f5es sociais tornaram-se recorrentes.<\/p>\n\n\n\n<p>O problema n\u00e3o se restringe \u00e0 sa\u00fade. Ele se repete no <strong>Legislativo<\/strong>, no <strong>Executivo<\/strong> e no <strong>Judici\u00e1rio<\/strong>. A aus\u00eancia de <strong>compliance<\/strong>, de auditorias eficazes e de puni\u00e7\u00e3o exemplar consolidou um ambiente de impunidade estrutural.<\/p>\n\n\n\n<p>A Rep\u00fablica \u2014 ironicamente chamada pelo senso comum de <strong>\u201cvi\u00fava\u201d<\/strong> \u2014 tornou-se o ente abstrato ao qual se atribuem todas as culpas. Mas os respons\u00e1veis s\u00e3o concretos: gestores, pol\u00edticos, servidores p\u00fablicos e, por vezes, uma sociedade que tolera o mesmo padr\u00e3o de comportamento h\u00e1 d\u00e9cadas.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><strong>CENTRALIZA\u00c7\u00c3O N\u00c3O \u00c9 ANT\u00cdDOTO, \u00c9 COMBUST\u00cdVEL<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A cren\u00e7a de que a centraliza\u00e7\u00e3o estatal combate a corrup\u00e7\u00e3o \u00e9 uma <strong>ilus\u00e3o burocr\u00e1tica<\/strong>. Ao retirar a autonomia dos estados, munic\u00edpios e institui\u00e7\u00f5es, eliminam-se:<\/p>\n\n\n\n<ul>\n<li>a responsabiliza\u00e7\u00e3o direta;<\/li>\n\n\n\n<li>o controle social efetivo;<\/li>\n\n\n\n<li>a concorr\u00eancia administrativa e tecnol\u00f3gica.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>Nenhum pa\u00eds com a <strong>densidade populacional do Brasil<\/strong> consegue moralizar sistemas gigantescos apenas por decreto. Pessoas sem car\u00e1ter n\u00e3o s\u00e3o isoladas por organogramas; s\u00e3o contidas por <strong>fiscaliza\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima<\/strong>, <strong>gest\u00e3o local<\/strong> e <strong>rotatividade de poder<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><strong>CONCLUS\u00c3O<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O SUS \u00e9 menos uma solu\u00e7\u00e3o e mais um sintoma. Um sintoma de um Estado que acredita que <strong>concentrar poder resolve problemas que s\u00e3o, essencialmente, morais e gerenciais<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>A experi\u00eancia hist\u00f3rica brasileira demonstra que <strong>sistemas descentralizados, aut\u00f4nomos e concorrentes<\/strong>, quando submetidos a controle rigoroso e transpar\u00eancia, funcionam melhor. A centraliza\u00e7\u00e3o extrema n\u00e3o combate a corrup\u00e7\u00e3o \u2014 <strong>ela a organiza, a protege e a perpetua<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>A <strong>Rep\u00fablica Federativa do Brasil<\/strong> somente alcan\u00e7ar\u00e1 verdadeira <strong>altivez institucional<\/strong> quando devolver aos <strong>estados<\/strong> as suas <strong>autonomias administrativa, econ\u00f4mica, social, educacional, previdenci\u00e1ria e de seguran\u00e7a p\u00fablica<\/strong>, respeitando, de forma efetiva, o <strong>pacto federativo<\/strong> inscrito na Constitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto persistir a usurpa\u00e7\u00e3o dessas autonomias pelo poder central, o resultado ser\u00e1 sempre o mesmo: sistemas inchados, ineficientes, vulner\u00e1veis \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o e distantes do cidad\u00e3o. Descentralizar n\u00e3o \u00e9 retroceder \u2014 <strong>\u00e9 restaurar responsabilidade, efici\u00eancia e democracia<\/strong>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>EDITORIAL: Candido Gomes &#8211; 20\/12\/2025 O Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS) \u00e9 apresentado, desde a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, como uma das maiores conquistas sociais da Rep\u00fablica. 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