

{"id":12143,"date":"2026-10-11T21:48:27","date_gmt":"2026-10-12T00:48:27","guid":{"rendered":"https:\/\/7ports.com.br\/?p=12143"},"modified":"2026-10-12T12:41:24","modified_gmt":"2026-10-12T15:41:24","slug":"valor-moral-tem-preco-ou-nao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/7ports.com.br\/?p=12143","title":{"rendered":"VALOR MORAL TEM PRE\u00c7O OU N\u00c3O?"},"content":{"rendered":"\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Uma reflex\u00e3o sobre a honra, o dinheiro e a degrada\u00e7\u00e3o da vida p\u00fablica<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O desenvolvimento da cultura humana chegou a um est\u00e1gio em que precisamos repensar at\u00e9 que ponto o indiv\u00edduo consegue preservar seus valores morais diante das exig\u00eancias da vida contempor\u00e2nea. Somos bombardeados por informa\u00e7\u00f5es, imagens de sucesso e compara\u00e7\u00f5es que, em outros tempos, n\u00e3o faziam parte do cotidiano da maioria das pessoas. O indiv\u00edduo humilde, que antes encontrava na conviv\u00eancia social uma medida razo\u00e1vel para sua exist\u00eancia, passou a ser confrontado permanentemente com o \u00eaxito alheio, real ou imagin\u00e1rio, e com a press\u00e3o de alcan\u00e7ar aquilo que a sociedade passou a apresentar como sin\u00f4nimo de realiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas ser\u00e1 que o progresso material corresponde, necessariamente, ao progresso moral? Ou estaremos apenas ampliando nossa capacidade de produzir riquezas enquanto reduzimos nossa disposi\u00e7\u00e3o de respeitar os princ\u00edpios que deveriam orientar a vida em sociedade?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Minha aproxima\u00e7\u00e3o com a pol\u00edtica come\u00e7ou em 1980, em uma cidade do interior do Estado do Rio de Janeiro. Minha forma\u00e7\u00e3o na vida industrial havia desenvolvido em mim uma maneira pragm\u00e1tica de observar os problemas, identificar suas causas e procurar solu\u00e7\u00f5es. Naquele ambiente, sentia-me um tanto deslocado, como algu\u00e9m que chegava de outra realidade intelectual e profissional. A cidade tinha suas tradi\u00e7\u00f5es, seus costumes e suas limita\u00e7\u00f5es, como tantas outras localidades brasileiras daquela \u00e9poca.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi nesse contexto que conheci o prefeito, um homem que, naquele primeiro momento, me pareceu probo e cordial. A conviv\u00eancia com ele representou uma esp\u00e9cie de inicia\u00e7\u00e3o \u00e0quilo que eu viria a compreender como a complexidade da pol\u00edtica: n\u00e3o apenas o exerc\u00edcio do poder, mas a administra\u00e7\u00e3o dos interesses humanos, com suas necessidades, contradi\u00e7\u00f5es e responsabilidades.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu me divertia com os problemas aparentemente simples que o prefeito me apresentava. Em geral, conseguia enxergar duas ou tr\u00eas alternativas para cada quest\u00e3o. Aquela experi\u00eancia me estimulava, pois come\u00e7ava a perceber que a gest\u00e3o p\u00fablica, quando conduzida com disposi\u00e7\u00e3o para resolver problemas, poderia transformar a realidade de uma comunidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">At\u00e9 que um epis\u00f3dio mudou o rumo da minha percep\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Certa ocasi\u00e3o, eu estava com o prefeito, tomando vinho na varanda de sua resid\u00eancia, quando entrou um homem de baixa estatura, visivelmente nervoso. Sem rodeios, dirigiu-se ao prefeito:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 Prefeito, quero minha demiss\u00e3o agora!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pensei que se tratasse de um assunto administrativo que exigisse privacidade e ensaiei me retirar. O prefeito, por\u00e9m, conteve-me e perguntou ao rec\u00e9m-chegado:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 O que foi desta vez, Newton?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em seguida, olhando para mim, explicou que aquele homem era o tesoureiro da prefeitura. Apressei-me em cumpriment\u00e1-lo, mas Newton voltou-se novamente para o prefeito:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 N\u00e3o d\u00e1 mais para trabalhar como tesoureiro!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O prefeito, aparentemente tranquilo, respondeu:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 Eu coloquei voc\u00ea nessa fun\u00e7\u00e3o porque sei que voc\u00ea n\u00e3o tem pre\u00e7o e n\u00e3o vai se corromper.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A resposta de Newton veio como uma senten\u00e7a:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 Prefeito, o senhor est\u00e1 errado! Eles j\u00e1 descobriram meu pre\u00e7o h\u00e1 muito tempo. N\u00e3o aguento mais ser chamado de idiota por todos os secret\u00e1rios. Quero minhas contas agora! N\u00e3o vou permitir que me desonrem!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aquela cena ficou gravada na minha mem\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Naquele instante, compreendi que a corrup\u00e7\u00e3o n\u00e3o se manifesta apenas no dinheiro que muda de m\u00e3os. Ela tamb\u00e9m se revela na press\u00e3o cotidiana exercida sobre quem procura permanecer honesto, na ridiculariza\u00e7\u00e3o dos princ\u00edpios e na tentativa de transformar a integridade em sinal de ingenuidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Newton n\u00e3o estava apenas pedindo demiss\u00e3o. Estava recusando uma condi\u00e7\u00e3o de trabalho na qual sua honestidade, em vez de ser respeitada, havia se tornado motivo de humilha\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi ali que nasceu, em mim, uma vontade ainda maior de contribuir para a gest\u00e3o p\u00fablica. Aquele epis\u00f3dio funcionou como um divisor de \u00e1guas: despertou o desejo de participar da vida pol\u00edtica e de compreender por que uma sociedade pode chegar ao ponto de constranger justamente aqueles que se recusam a transgredir seus princ\u00edpios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Quarenta e tr\u00eas anos depois, a pergunta continua atual: o que aconteceu com a honra quando a desonestidade passou a ser tratada, em determinados ambientes, como uma vantagem competitiva?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A corrup\u00e7\u00e3o n\u00e3o pertence exclusivamente a uma \u00e9poca, a uma ideologia ou a uma institui\u00e7\u00e3o. Ela pode surgir onde houver poder sem controle, recursos sem transpar\u00eancia e interesses particulares colocados acima das responsabilidades coletivas. Por isso, preocupa-me quando surgem den\u00fancias e controv\u00e9rsias envolvendo institui\u00e7\u00f5es que deveriam representar refer\u00eancias de legalidade, justi\u00e7a e fiscaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando penso nos epis\u00f3dios que alcan\u00e7am as mais altas esferas do poder, lembro-me de Newton: um homem de baixa estatura f\u00edsica, mas cuja estatura moral permanece, na minha mem\u00f3ria, muito acima da de tantos que se julgam importantes pelo cargo que ocupam.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que representava aquele pequeno munic\u00edpio diante do Estado, da na\u00e7\u00e3o ou do planeta? Pouco, talvez, em territ\u00f3rio, popula\u00e7\u00e3o ou recursos. Mas aquele epis\u00f3dio continha uma quest\u00e3o universal: quanto custa preservar a pr\u00f3pria consci\u00eancia quando todos ao redor parecem dispostos a negociar a deles?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A dimens\u00e3o geogr\u00e1fica de uma sociedade n\u00e3o determina sua grandeza moral. Uma pequena comunidade pode oferecer uma li\u00e7\u00e3o que institui\u00e7\u00f5es poderosas, cercadas de t\u00edtulos, cerim\u00f4nias e prerrogativas, parecem incapazes de aprender.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O dinheiro como instrumento e como tenta\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A degrada\u00e7\u00e3o moral n\u00e3o pode ser compreendida sem que examinemos a rela\u00e7\u00e3o humana com o dinheiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O dinheiro \u00e9 uma conven\u00e7\u00e3o social que facilita as trocas, permite comparar valores econ\u00f4micos e organiza parte significativa das rela\u00e7\u00f5es produtivas. N\u00e3o \u00e9, por si s\u00f3, virtuoso nem perverso. Seu significado moral depende, sobretudo, da maneira como \u00e9 obtido, administrado e empregado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entretanto, quando o dinheiro deixa de ser um instrumento a servi\u00e7o da vida e passa a ser tratado como a finalidade suprema da exist\u00eancia, estabelece-se uma invers\u00e3o de valores. O patrim\u00f4nio come\u00e7a a valer mais do que a palavra; o cargo, mais do que a responsabilidade; a apar\u00eancia de sucesso, mais do que a honestidade que deveria sustent\u00e1-lo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 particularmente grave quando recursos p\u00fablicos s\u00e3o tratados como se n\u00e3o tivessem dono, como se pertencessem \u00e0queles que temporariamente exercem o poder. O dinheiro p\u00fablico n\u00e3o \u00e9 uma abstra\u00e7\u00e3o cont\u00e1bil: representa trabalho, impostos, sacrif\u00edcios e expectativas de milh\u00f5es de cidad\u00e3os. Cada desvio, desperd\u00edcio ou apropria\u00e7\u00e3o indevida compromete oportunidades que poderiam beneficiar a coletividade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A quest\u00e3o, portanto, n\u00e3o \u00e9 demonizar o dinheiro, mas compreender a sua posi\u00e7\u00e3o na hierarquia dos valores humanos. Uma sociedade que n\u00e3o consegue distinguir o valor econ\u00f4mico de uma coisa do valor moral de uma conduta acaba confundindo riqueza com m\u00e9rito e poder com superioridade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Precisamos, por isso, de pensadores, fil\u00f3sofos, educadores e empres\u00e1rios dispostos a examinar criticamente os fundamentos de nossas institui\u00e7\u00f5es. N\u00e3o basta repetir f\u00f3rmulas ideol\u00f3gicas, dogmas religiosos ou discursos econ\u00f4micos. \u00c9 necess\u00e1rio perguntar, argumentar, confrontar os fatos e admitir a possibilidade de estarmos equivocados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nenhuma cren\u00e7a, doutrina ou ideologia deveria estar acima do exame racional. Tampouco devemos aceitar que express\u00f5es vagas, como \u201cinteresses ocultos\u201d, substituam a investiga\u00e7\u00e3o concreta das causas, dos respons\u00e1veis e das consequ\u00eancias de uma decis\u00e3o. Onde houver suspeitas, que se apurem os fatos; onde houver provas, que se estabele\u00e7am as responsabilidades, respeitando-se o devido processo legal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O pensamento cr\u00edtico n\u00e3o existe para proteger esta ou aquela corrente de ideias. Existe para impedir que qualquer corrente de ideias se transforme em instrumento de domina\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O pre\u00e7o da consci\u00eancia<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em minha compreens\u00e3o, muitas rela\u00e7\u00f5es humanas ainda conservam a l\u00f3gica elementar do escambo: algo \u00e9 oferecido em troca de alguma vantagem. Essa l\u00f3gica \u00e9 leg\u00edtima nas transa\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, desde que respeitados os direitos das partes. O problema come\u00e7a quando a mesma racionalidade \u00e9 transportada, sem limites \u00e9ticos, para o campo dos princ\u00edpios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma coisa \u00e9 negociar mercadorias, servi\u00e7os e interesses leg\u00edtimos. Outra, inteiramente diferente, \u00e9 negociar a pr\u00f3pria dignidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O pragmatismo, quando levado a s\u00e9rio, exige que examinemos as consequ\u00eancias reais de nossas escolhas. N\u00e3o basta proclamar uma inten\u00e7\u00e3o virtuosa; \u00e9 preciso verificar se a conduta produz resultados compat\u00edveis com os princ\u00edpios anunciados. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o basta alcan\u00e7ar um resultado favor\u00e1vel se, para obt\u00ea-lo, destru\u00edmos os fundamentos morais que deveriam orientar nossa a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O \u00eaxito econ\u00f4mico n\u00e3o absolve a desonestidade. A consagra\u00e7\u00e3o p\u00fablica n\u00e3o transforma um erro em acerto. E o reconhecimento social, quando dissociado do m\u00e9rito, pode ser apenas o aplauso de uma sociedade que perdeu seus crit\u00e9rios de julgamento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 ainda uma dificuldade que considero decisiva: desaprender.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Muitas pessoas passam a vida defendendo conceitos recebidos como verdades definitivas. Quando os fatos contradizem esses conceitos, reconhecer o erro exige mais do que intelig\u00eancia: exige humildade. \u00c9 preciso aceitar que uma parte daquilo que aprendemos pode estar equivocada e que mudar de opini\u00e3o n\u00e3o representa necessariamente uma derrota.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao contr\u00e1rio, a capacidade de rever convic\u00e7\u00f5es diante de argumentos e evid\u00eancias constitui uma das express\u00f5es mais importantes da liberdade intelectual.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez seja esse um dos maiores obst\u00e1culos \u00e0 renova\u00e7\u00e3o moral e pol\u00edtica: n\u00e3o apenas a exist\u00eancia de interesses particulares, mas a resist\u00eancia de pessoas e grupos a reconhecer que seus privil\u00e9gios, suas certezas e suas posi\u00e7\u00f5es de prest\u00edgio podem ter sido constru\u00eddos sobre fundamentos fr\u00e1geis.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Institui\u00e7\u00f5es, poder e responsabilidade<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Preocupa-me quando a confian\u00e7a p\u00fablica \u00e9 abalada por den\u00fancias, conflitos de interesse ou controv\u00e9rsias envolvendo institui\u00e7\u00f5es que deveriam assegurar a aplica\u00e7\u00e3o das leis. O problema n\u00e3o se limita a um tribunal, a um \u00f3rg\u00e3o de investiga\u00e7\u00e3o, a uma procuradoria, a uma unidade federativa ou a um munic\u00edpio. A quest\u00e3o \u00e9 sist\u00eamica: como garantir que o poder seja exercido dentro dos limites da lei e em benef\u00edcio da sociedade?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As institui\u00e7\u00f5es n\u00e3o devem ser julgadas apenas por sua reputa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, mas tamb\u00e9m pela transpar\u00eancia de seus atos, pela qualidade de seus controles e pela disposi\u00e7\u00e3o de corrigir falhas. Nenhuma institui\u00e7\u00e3o \u00e9 infal\u00edvel, e nenhuma deve ser condenada sem provas. O que se exige de todas \u00e9 responsabilidade, presta\u00e7\u00e3o de contas e submiss\u00e3o \u00e0s normas que legitimam sua exist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O mesmo cuidado deve alcan\u00e7ar as autarquias, as empresas estatais e as concess\u00f5es de servi\u00e7os p\u00fablicos. Quando a administra\u00e7\u00e3o de recursos e servi\u00e7os coletivos se afasta do interesse p\u00fablico, o cidad\u00e3o corre o risco de se tornar mero espectador de decis\u00f5es tomadas em seu nome, mas sem a necess\u00e1ria correspond\u00eancia com suas necessidades.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nas empresas privadas, sobretudo naquelas que exploram servi\u00e7os por concess\u00e3o p\u00fablica, a responsabilidade tamb\u00e9m \u00e9 relevante. A delega\u00e7\u00e3o de um servi\u00e7o n\u00e3o elimina o dever de fiscaliza\u00e7\u00e3o do poder concedente, nem transforma o interesse privado em autoriza\u00e7\u00e3o para ignorar o interesse coletivo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O dinheiro p\u00fablico exige controle. O poder exige limites. E a confian\u00e7a social exige coer\u00eancia entre o discurso e a pr\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sem esses tr\u00eas elementos, a democracia corre o risco de conservar suas formas exteriores enquanto enfraquece sua subst\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A esperan\u00e7a na consci\u00eancia coletiva<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Confesso que me angustia ouvir pessoas afirmarem que nada mais pode ser feito, que a corrup\u00e7\u00e3o \u00e9 invenc\u00edvel e que a degrada\u00e7\u00e3o moral se tornou um destino inevit\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o compartilho desse fatalismo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Reconhe\u00e7o as dificuldades, os interesses organizados e a complexidade dos problemas. Entretanto, n\u00e3o aceito que a exist\u00eancia de pr\u00e1ticas desonestas autorize a conclus\u00e3o de que a sociedade inteira esteja condenada a reproduzi-las.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 cidad\u00e3os que trabalham honestamente, cumprem seus deveres, educam seus filhos, respeitam a palavra empenhada e se recusam a obter vantagens indevidas. Muitos deles n\u00e3o ocupam cargos importantes, n\u00e3o aparecem nos notici\u00e1rios e n\u00e3o recebem homenagens. Sua contribui\u00e7\u00e3o \u00e9 silenciosa, mas indispens\u00e1vel \u00e0 continuidade da vida social.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 nessa maioria de cidad\u00e3os que procuram agir corretamente que deposito minha esperan\u00e7a. N\u00e3o porque o povo seja infal\u00edvel ou esteja imune \u00e0 manipula\u00e7\u00e3o, mas porque nenhuma transforma\u00e7\u00e3o duradoura ser\u00e1 poss\u00edvel sem a participa\u00e7\u00e3o consciente de pessoas comuns.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A consci\u00eancia coletiva, quando informada, organizada e comprometida com a responsabilidade, pode exigir transpar\u00eancia, fiscalizar o poder e construir alternativas. Para isso, por\u00e9m, n\u00e3o bastam indigna\u00e7\u00e3o passageira ou discursos inflamados. S\u00e3o necess\u00e1rios educa\u00e7\u00e3o, participa\u00e7\u00e3o, institui\u00e7\u00f5es respons\u00e1veis e mecanismos efetivos de controle.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A transforma\u00e7\u00e3o moral n\u00e3o acontece por decreto. Ela come\u00e7a na forma\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo, manifesta-se nas escolhas cotidianas e ganha dimens\u00e3o pol\u00edtica quando os cidad\u00e3os passam a exigir que as institui\u00e7\u00f5es correspondam aos valores que proclamam.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Afinal, o valor moral tem pre\u00e7o?<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Voltemos \u00e0 pergunta que d\u00e1 t\u00edtulo a esta reflex\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Minha resposta \u00e9 que o valor moral pode ter um pre\u00e7o, mas n\u00e3o necessariamente aquele que o dinheiro consegue pagar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A honestidade pode custar um emprego, uma oportunidade, uma amizade ou uma posi\u00e7\u00e3o de prest\u00edgio. A integridade pode exigir ren\u00fancias, impor isolamento e provocar conflitos. Quem se recusa a participar de uma pr\u00e1tica desonesta pode ser chamado de ing\u00eanuo, ultrapassado ou incapaz de compreender como o mundo funciona.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse \u00e9 o pre\u00e7o de resistir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas existe outro pre\u00e7o, muito mais profundo, que \u00e9 o de capitular: perder a liberdade de olhar para si mesmo sem constrangimento, tornar-se dependente das pr\u00f3prias concess\u00f5es e descobrir, talvez tarde demais, que a vantagem obtida n\u00e3o compensou a dignidade sacrificada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Newton compreendeu esse dilema quando decidiu que n\u00e3o continuaria ocupando uma fun\u00e7\u00e3o na qual sua honestidade era tratada como defeito. N\u00e3o sei o que aconteceu depois com ele, mas sei o que aquele epis\u00f3dio representou para mim. Sua atitude mostrou que a estatura moral de um homem n\u00e3o depende de sua posi\u00e7\u00e3o social, de sua riqueza ou de sua autoridade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Depende daquilo que ele est\u00e1 disposto a preservar quando preservar seus princ\u00edpios deixa de ser conveniente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pergunta, portanto, n\u00e3o deve ser apenas quanto vale a consci\u00eancia, mas o que resta de n\u00f3s quando aceitamos negoci\u00e1-la.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Muito antes da era crist\u00e3, Conf\u00facio j\u00e1 refletia sobre a forma\u00e7\u00e3o moral do ser humano. Atribui-se a ele a seguinte m\u00e1xima:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>\u201cAs naturezas dos homens s\u00e3o parecidas; \u00e9 a educa\u00e7\u00e3o que os distingue.\u201d<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A frase nos remete a uma responsabilidade fundamental: se a forma\u00e7\u00e3o humana influencia nossas escolhas, a educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode se limitar \u00e0 transmiss\u00e3o de conhecimentos ou \u00e0 prepara\u00e7\u00e3o para o mercado de trabalho. Precisa tamb\u00e9m desenvolver o discernimento, a capacidade de questionar, o respeito \u00e0 dignidade alheia e a compreens\u00e3o das consequ\u00eancias de nossos atos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma sociedade pode formar profissionais brilhantes e, ainda assim, fracassar na forma\u00e7\u00e3o de cidad\u00e3os respons\u00e1veis. Pode acumular riqueza e empobrecer moralmente. Pode multiplicar suas institui\u00e7\u00f5es sem assegurar que elas cumpram os prop\u00f3sitos para os quais foram criadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O verdadeiro progresso exige que o conhecimento caminhe ao lado da responsabilidade, que a liberdade seja acompanhada pela consci\u00eancia e que o poder permane\u00e7a subordinado \u00e0 lei e ao interesse p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 por isso que continuo acreditando na possibilidade de mudan\u00e7a. N\u00e3o na perfei\u00e7\u00e3o humana, mas na capacidade de aprender, corrigir erros e reconstruir caminhos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O valor moral tem pre\u00e7o, sim: o pre\u00e7o de resistir, de n\u00e3o capitular e de continuar progredindo sem sacrificar a pr\u00f3pria dignidade.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E, se quisermos construir uma sociedade verdadeiramente livre, teremos de compreender que a prosperidade n\u00e3o se mede apenas pelo que acumulamos, mas tamb\u00e9m pelo que nos recusamos a vender.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Agenor Candidu<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma reflex\u00e3o sobre a honra, o dinheiro e a degrada\u00e7\u00e3o da vida p\u00fablica O desenvolvimento da cultura humana chegou a um est\u00e1gio em que precisamos repensar at\u00e9 que ponto o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":11979,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[855],"tags":[],"post_folder":[],"class_list":["post-12143","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-b-04-editorial"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/7ports.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/12143","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/7ports.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/7ports.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/7ports.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/7ports.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=12143"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/7ports.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/12143\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":12144,"href":"https:\/\/7ports.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/12143\/revisions\/12144"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/7ports.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/11979"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/7ports.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=12143"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/7ports.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=12143"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/7ports.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=12143"},{"taxonomy":"post_folder","embeddable":true,"href":"https:\/\/7ports.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fpost_folder&post=12143"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}