
{"id":6975,"date":"2022-02-08T08:37:24","date_gmt":"2022-02-08T11:37:24","guid":{"rendered":"https:\/\/7ports.com.br\/?p=6975"},"modified":"2022-02-23T12:15:27","modified_gmt":"2022-02-23T15:15:27","slug":"brasil-recebe-mas-nao-acolhe-violencia-preconceito-e-pobreza-fazem-com-que-congoleses-pensem-em-deixar-o-pais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/7ports.com.br\/?p=6975","title":{"rendered":"IMIGRA\u00c7\u00c3O: &#8216;Brasil recebe, mas n\u00e3o acolhe&#8217;: viol\u00eancia, preconceito e pobreza fazem com que congoleses pensem em deixar o pa\u00eds"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/640\/cpsprodpb\/50FE\/production\/_123143702_a4d356d5-306d-4b32-af1e-3cd7f1248320.jpg\" alt=\"Mo\u00efse Kabagambe\"\/><figcaption>Legenda da foto,Congol\u00eas Mo\u00efse Kabagambe foi espancado at\u00e9 a morte no Rio<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<ul><li>Rafael Barifouse<\/li><li>Da BBC News Brasil em S\u00e3o Paulo<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>5 fevereiro 2022<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&#8220;Sa\u00ed de casa para trabalhar h\u00e1 sete anos e nunca mais voltei.&#8221; Lina*, uma congolesa refugiada no Brasil, resume assim sua hist\u00f3ria desde que deixou seu pa\u00eds.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ela conta que vinha sendo perseguida por ser oposi\u00e7\u00e3o e protestar contra o governo que estava no poder na \u00e9poca e que chegou a ficar presa ilegalmente por um m\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<ul><li><a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/brasil-60267350\">Caso Mo\u00efse: os fatores que levam a tantos casos de linchamento no Brasil<\/a><\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>Lina afirma que seu marido j\u00e1 havia fugido pelo mesmo motivo e, depois de ser libertada, decidiu fazer igual. Ficou escondida algum tempo e, ent\u00e3o, aproveitou um visto brasileiro de turismo que tinha tirado h\u00e1 pouco.<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui no Brasil, ela encontrou seu lugar na comunidade crescente de congoleses. Depois de algum tempo, reencontrou-se com o marido.<a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/institutional\/2015\/01\/000000_advertising_faqs\">PUBLICIDADE<\/a>https:\/\/5fedc75eaf05bf0af6e5cfa752b2cbfd.safeframe.googlesyndication.com\/safeframe\/1-0-38\/html\/container.html<\/p>\n\n\n\n<p>Mas ela diz que nunca conseguiu um emprego na \u00e1rea em que se formou e foi morar na periferia, onde conseguia pagar as contas com os trabalhos que surgem, gra\u00e7as aos outros e por iniciativa pr\u00f3pria.<a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/brasil-60267870#end-of-recommendations\">Pule Talvez tamb\u00e9m te interesse e continue lendo<\/a><strong>Talvez tamb\u00e9m te interesse<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"end-of-recommendations\">Fim do Talvez tamb\u00e9m te interesse<\/p>\n\n\n\n<p>A vida foi se ajeitando, mas Lina acha que pode ser obrigada a partir de novo. Ela diz que, de uns anos para c\u00e1, as hostilidades contra os congoleses ficaram mais frequentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Conta que sua casa foi invadida e que seu marido recebeu uma amea\u00e7a de morte. Lina decidiu se mudar com a fam\u00edlia para outro bairro &#8211; e, alguns dias depois, um amigo, que tamb\u00e9m era africano, foi assassinado pelo vizinho.<a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/brasil-60267870#end-of-podcasts\">Pule Podcast e continue lendo<\/a><strong>Podcast<\/strong><a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/podcasts\/p09qw1cn\">BBC L\u00ea<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>A equipe da BBC News Brasil l\u00ea para voc\u00ea algumas de suas melhores reportagens<\/p>\n\n\n\n<p>Epis\u00f3dios<\/p>\n\n\n\n<p id=\"end-of-podcasts\">Fim do Podcast<\/p>\n\n\n\n<p>Lina n\u00e3o se sente mais segura no Brasil. A not\u00edcia de que&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/brasil-60224204\">Mo\u00efse Kabagambe, um congol\u00eas de 24 anos, foi espancado at\u00e9 a morte ao cobrar um pagamento pelo bico que fazia em um quiosque no Rio<\/a>, s\u00f3 aumentou seu medo.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;N\u00e3o foi um caso isolado. O que aconteceu com o Mo\u00efse j\u00e1 aconteceu com outros. Muita gente acha que a situa\u00e7\u00e3o vai piorar ainda mais&#8221;, diz ela. &#8220;Muitos est\u00e3o pensando em sair do Brasil.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>O governo da Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo, por meio da sua embaixada no Brasil, disse que Mo\u00efse foi o quinto congol\u00eas morto no pa\u00eds nos \u00faltimos seis anos.<\/p>\n\n\n\n<p>O Congo disse que pediu explica\u00e7\u00f5es ao governo brasileiro, mas que nunca recebeu retorno.<\/p>\n\n\n\n<p>A BBC News Brasil questionou o Itamaraty, que n\u00e3o respondeu se foi ou n\u00e3o questionado pelo governo do Congo sobre os crimes.<\/p>\n\n\n\n<p>O minist\u00e9rio falou apenas do caso de Mo\u00efse e disse que &#8220;expressa sua indigna\u00e7\u00e3o com o brutal assassinato e espera que o culpado ou culpados sejam levados \u00e0 Justi\u00e7a no menor prazo poss\u00edvel&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Tr\u00eas homens foram presos e acusados de matar o congol\u00eas. Imagens de c\u00e2meras de seguran\u00e7a registraram o crime.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;N\u00e3o queremos mais ficar no pa\u00eds&#8221;, disse a m\u00e3e de Mo\u00efse \u00e0&nbsp;<a href=\"https:\/\/revistamarieclaire.globo.com\/EuLeitora\/noticia\/2022\/02\/vamos-embora-do-brasil-quando-se-fizer-justica-por-meu-filho-diz-mae-de-moise.html\">revista Marie Claire<\/a>. &#8220;Pretendemos ir embora do Brasil quando se fizer justi\u00e7a pelo meu filho.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<ul><li><a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/media-60252088\">Caso Mo\u00efse: imprensa internacional cita &#8216;debate sobre xenofobia&#8217; ap\u00f3s assassinato de congol\u00eas no Brasil<\/a><\/li><\/ul>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"Crise-humanit\u00e1ria-no-Congo-\u00e9-uma-das-mais-complexas-do-mundo\">Crise humanit\u00e1ria no Congo \u00e9 uma das mais complexas do mundo<\/h2>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/640\/cpsprodpb\/02DE\/production\/_123143700_0e7156c9-d3a9-4260-945a-31be6c262f29.jpg\" alt=\"Homem peneira pedras\"\/><figcaption>Legenda da foto,Conflitos nas disputas por min\u00e9rio s\u00e3o um dos principais focos de viol\u00eancia do Congo hoje<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Os congoleses s\u00e3o a terceira nacionalidade que mais recebeu ref\u00fagio no Brasil na \u00faltima d\u00e9cada.<\/p>\n\n\n\n<p>Foram 1.050 pessoas entre 2011 e 2020,&nbsp;<a href=\"https:\/\/portaldeimigracao.mj.gov.br\/images\/dados\/relatorios_conjunturais\/2020\/Ref%C3%BAgio_em_N%C3%BAmeros_6%C2%AA_edi%C3%A7%C3%A3o.pdf\">segundo o Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a e Seguran\u00e7a Publica<\/a>, s\u00f3 menos do que os venezuelanos (46.412 &#8211; de longe, os mais numerosos) e os s\u00edrios (3594).<\/p>\n\n\n\n<p>Mas os especialistas alertam que as estat\u00edsticas de migra\u00e7\u00e3o costumam ser subnotificadas, e os n\u00fameros na pr\u00e1tica s\u00e3o provavelmente maiores.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde 1999, 2.552 pedidos de ref\u00fagio de congoleses foram aceitos pelo Brasil, de acordo com os dados oficiais. A maioria absoluta deles ocorreu nos dez \u00faltimos anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso faz parte de uma mudan\u00e7a radical no perfil da imigra\u00e7\u00e3o para o Brasil. O pa\u00eds costumava receber mais pessoas de pa\u00edses desenvolvidos, especialmente os funcion\u00e1rios de empresas e suas fam\u00edlias.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, na d\u00e9cada passada, o Brasil come\u00e7ou a ser o destino de cada vez mais gente de outros pa\u00edses em desenvolvimento.<\/p>\n\n\n\n<ul><li><a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/brasil-60227394\">Qualificados, mas com trabalho bra\u00e7al: como congoleses &#8216;descobrem racismo&#8217; no Brasil<\/a><\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>Isso tem em parte a ver com os fluxos gerados por crises humanit\u00e1rias, como no Haiti, na S\u00edria e na Venezuela.<\/p>\n\n\n\n<p>No caso do Congo, uma guerra civil eclodiu ap\u00f3s o longo per\u00edodo de ditadura e mergulhou o pa\u00eds na viol\u00eancia a partir de 1997.<\/p>\n\n\n\n<p>Oficialmente, o conflito acabou em 2003, mas o pa\u00eds continuou a sofrer com instabilidades pol\u00edticas e sociais.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A guerra nunca acabou&#8221;, diz o congol\u00eas Bas&#8217;Ilele Malomalo, professor de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais da Universidade da Integra\u00e7\u00e3o Internacional da Lusofonia Afro-brasileira (Unilab) e pesquisador de movimentos migrat\u00f3rios africanos no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/640\/cpsprodpb\/10C1A\/production\/_123143686_c0559260-3515-4eec-b978-c0c1693ac64a.jpg\" alt=\"Capacete da ONU ao lado de soldado\"\/><figcaption>Legenda da foto,&#8217;A guerra nunca acabou&#8217;, diz pesquisador congol\u00eas<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Malomalo explica que o Congo continua a sofrer com a viol\u00eancia por causa dos conflitos vizinhos que transbordam pelas fronteiras.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m h\u00e1 uma sangrenta disputa pelo controle de territ\u00f3rios para minera\u00e7\u00e3o das enormes reservas de coltan do Congo &#8211; o min\u00e9rio \u00e9 usado na produ\u00e7\u00e3o de componentes de aparelhos de tecnologia e, de t\u00e3o valioso e badalado, ganhou o apelido de &#8220;ouro azul&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;As multinacionais financiam grupos rebeldes para conseguir extrair o min\u00e9rio com a ajuda de pol\u00edticos locais&#8221;, diz Malomalo.<\/p>\n\n\n\n<ul><li><a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/internacional-58714011\">EUA deportam 47 crian\u00e7as brasileiras para o Haiti<\/a><\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>A Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU) afirma que a situa\u00e7\u00e3o humanit\u00e1ria do Congo hoje &#8220;\u00e9 uma das mais complexas e desafiadoras em todo o mundo&#8221;, porque &#8220;m\u00faltiplos conflitos afetam v\u00e1rias partes do pa\u00eds&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>A ONU calcula que mais de 5 milh\u00f5es de pessoas tiveram de abandonar suas casas s\u00f3 entre 2017 e 2019 por causa da viol\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Al\u00e9m disso, a pobreza tamb\u00e9m n\u00e3o acabou e, apesar de ter havido um avan\u00e7o democr\u00e1tico com as elei\u00e7\u00f5es de 2018, ainda tem repress\u00e3o&#8221;, afirma Malomalo, que chegou ao Brasil em 1997 para estudar Teologia.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/640\/cpsprodpb\/BDFA\/production\/_123143684_1f859cb5-3730-48d4-89ed-a169807bca23.jpg\" alt=\"Campo de refugiados no Congo\"\/><figcaption>Legenda da foto,Milh\u00f5es de pessoas j\u00e1 tiveram que abandonar suas casas por causa da viol\u00eancia no Congo<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"Como-o-Brasil-se-tornou-destino-dos-congoleses\">Como o Brasil se tornou destino dos congoleses<\/h2>\n\n\n\n<p>O pesquisador explica que o Brasil n\u00e3o era tradicionalmente o destino dos imigrantes congoleses.<\/p>\n\n\n\n<p>Eles costumavam ir para os Estados Unidos e, por causa da facilidade de j\u00e1 falarem franc\u00eas, para a B\u00e9lgica &#8211; que colonizou o Congo &#8211; e a Fran\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, a partir dos anos 2000, ficou cada vez mais dif\u00edcil imigrar para esses pa\u00edses, e as fronteiras do Brasil se abriram com os acordos culturais e econ\u00f4micos fechados com pa\u00edses africanos.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa n\u00e3o \u00e9 a primeira onda de imigra\u00e7\u00e3o congolesa (e africana em geral) para o Brasil, explica Malomalo: &#8220;70% da popula\u00e7\u00e3o escravizada que veio para c\u00e1 saiu da parte da \u00c1frica onde est\u00e1 o Congo&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>O samba, os quilombos, o &#8220;pretugu\u00eas&#8221; &#8211; a influ\u00eancia dos idiomas africanos sobre o portugu\u00eas &#8211; s\u00e3o alguns dos exemplos que o professor cita da influ\u00eancia dos congoleses.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Nossos av\u00f3s moldaram o Brasil e ajudaram a construir a identidade nacional.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/brasil-60227394\">Uma caracter\u00edstica em comum entre os congoleses que v\u00eam para c\u00e1 nesta nova leva de imigrantes \u00e9 ter uma boa instru\u00e7\u00e3o<\/a>. Em geral, ensino m\u00e9dio completo e, em v\u00e1rios casos, faculdade.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas eles t\u00eam dificuldade de conseguir trabalho no Brasil que n\u00e3o seja bra\u00e7al ou mal remunerado.<\/p>\n\n\n\n<p>Um imigrante congol\u00eas formalmente empregado ganha R$ 1.862 em m\u00e9dia,&nbsp;<a href=\"https:\/\/portaldeimigracao.mj.gov.br\/images\/Obmigra_2020\/Relat%C3%B3rio_Anual\/Relato%CC%81rio_Anual_-_Completo.pdf\">apontam dados do governo<\/a>. \u00c9 o segundo menor valor entre todas as nacionalidades. S\u00f3 os haitianos ganham menos (R$ 1.776).<\/p>\n\n\n\n<ul><li><a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/geral-58638622\">A hist\u00f3ria por tr\u00e1s das chocantes imagens de agentes ca\u00e7ando imigrantes nos EUA<\/a><\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>Os entrevistados tamb\u00e9m avaliam que nos \u00faltimos anos ficou mais demorado e dif\u00edcil conseguir vistos e ref\u00fagio no Brasil. Dizem que o governo aumentou a burocracia dos processos de prop\u00f3sito para reduzir o fluxo do Congo para c\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>Procurados pela BBC News Brasil, os minist\u00e9rios da Justi\u00e7a e das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores n\u00e3o responderam sobre esse assunto at\u00e9 a publica\u00e7\u00e3o da reportagem.<\/p>\n\n\n\n<p>Os&nbsp;<a href=\"https:\/\/app.powerbi.com\/view?r=eyJrIjoiNTQ4MTU0NGItYzNkMi00M2MwLWFhZWMtMDBiM2I1NWVjMTY5IiwidCI6ImU1YzM3OTgxLTY2NjQtNDEzNC04YTBjLTY1NDNkMmFmODBiZSIsImMiOjh9\">dados oficiais<\/a>&nbsp;mostram que, no caso dos congoleses, o n\u00famero de ref\u00fagios concedidos vem caindo ano a ano desde o pico de 2015, quando 708 pedidos foram aceitos.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2019, o \u00faltimo ano antes da pandemia, foram 80 &#8211; 90% a menos.<\/p>\n\n\n\n<p>E 2020 foi o primeiro ano nos \u00faltimos cinco em que mais pedidos de ref\u00fagio de congoleses foram negados (41) do que aceitos (34). Em 2021, 21 foram negados e 28, aceitos.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Cerca de metade das pessoas que pedem ref\u00fagio hoje em dia n\u00e3o conseguem e acabam indo para o limbo dos indocumentados&#8221;, diz Malomalo.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Elas n\u00e3o conseguem procurar emprego, abrir um neg\u00f3cio. \u00c9 uma categoria de gente sem cidadania.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"Pandemia-agravou-a-situa\u00e7\u00e3o-dos-congoleses\">Pandemia agravou a situa\u00e7\u00e3o dos congoleses<\/h2>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/640\/cpsprodpb\/6FDA\/production\/_123143682_68b3f31a-9bec-4b92-9a96-8d1dd5d265fd.jpg\" alt=\"Favela no Rio\"\/><figcaption>Legenda da foto,Sal\u00e1rio baixo e informalidade levam os imigrantes a viver em favelas e periferias<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Os congoleses vivem hoje no Brasil, na maioria absoluta dos casos, nas periferias e favelas. \u00c9 onde eles conseguem alugu\u00e9is mais baratos e sem burocracia.<\/p>\n\n\n\n<p>Eles s\u00e3o invis\u00edveis, diz a advogada Karina Quintanilha, que \u00e9 especializada em migra\u00e7\u00e3o e ref\u00fagio e pesquisadora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o invis\u00edveis porque ficam longe da vista de muita gente, vivendo nas franjas das grandes cidades, mas tamb\u00e9m s\u00e3o invis\u00edveis para o Estado, que n\u00e3o cria pol\u00edticas p\u00fablicas para eles, diz Quintanilha.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Isso ficou muito claro durante a pandemia, porque n\u00e3o havia uma previs\u00e3o espec\u00edfica do aux\u00edlio emergencial para esses imigrantes&#8221;, afirma a advogada.<\/p>\n\n\n\n<ul><li><a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/internacional-56342515\">Haitianos deixam Brasil em meio \u00e0 crise econ\u00f4mica e fake news sobre fronteira aberta nos EUA<\/a><\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo, a pandemia deixou muitos congoleses sem renda.<\/p>\n\n\n\n<p>V\u00e1rios s\u00e3o ambulantes, t\u00eam com\u00e9rcios ou pequenos neg\u00f3cios e trabalham com cultura e, especialmente, com turismo &#8211; uma vantagem que falar franc\u00eas confere a eles.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m ficou mais dif\u00edcil contar com a ajuda que eles normalmente recebem da comunidade.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/640\/cpsprodpb\/15A3A\/production\/_123143688_19c1f6cc-6925-4214-8a1f-58789136fc71.jpg\" alt=\"Homem caminha em rua comercial vazia\"\/><figcaption>Legenda da foto,Pandemia deixou muitos refugiados sem trabalho<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Aline Thuller, coordenadora do Programa de Atendimento a Refugiados da C\u00e1ritas RJ, organiza\u00e7\u00e3o de assist\u00eancia que \u00e9 mantida pela Arquidiocese do Rio de Janeiro, diz que ela voltou a ver refugiados que h\u00e1 muito tempo n\u00e3o procuravam ajuda.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Eram pessoas que estavam estabilizadas. S\u00e3o pobres, mas a vida estava organizada, e agora vieram pedir uma cesta b\u00e1sica, ajuda para o aluguel pra n\u00e3o serem despejadas, um medicamento\u2026&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>A assistente social diz que muitos dos congoleses chegaram ao Brasil com a inten\u00e7\u00e3o de trabalhar para sustentar a fam\u00edlia aqui ou mandar dinheiro para quem ficou no Congo.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas Thuller afirma que muitos come\u00e7aram a ter problemas para fazer isso nos \u00faltimos anos, porque o custo de vida subiu, e os sal\u00e1rios n\u00e3o acompanharam.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Acaba sobrando muito pouco. Muitos pensam em sair do Brasil porque n\u00e3o conseguem mais se sustentar aqui.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"Viol\u00eancia-\u00e9-cotidiana\">&#8216;Viol\u00eancia \u00e9 cotidiana&#8217;<\/h2>\n\n\n\n<p>A tudo isso se soma que os refugiados s\u00e3o mais vulner\u00e1veis \u00e0 viol\u00eancia urbana por causa de onde vivem.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;J\u00e1 ouvi de muitas m\u00e3es que elas sa\u00edram do Congo para que a guerra n\u00e3o matasse o seu filho, mas que nunca tinha ouvido tanto tiro quanto no Rio de Janeiro&#8221;, afirma a assistente social.<\/p>\n\n\n\n<p>Os relatos e acontecimentos tamb\u00e9m deixam claro como os imigrantes africanos s\u00e3o frequentemente alvo de racismo e xenofobia.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;As pessoas sempre acham que eles s\u00e3o menos civilizados, s\u00e3o chamados de macacos, na escola a merendeira diz que a crian\u00e7a n\u00e3o pode recusar um alimento porque veio de um pa\u00eds onde se passa fome&#8221;, diz Thuller.<\/p>\n\n\n\n<p>Lina diz que percebeu desde as \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es que o \u00f3dio contra os imigrantes ficou mais evidente.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Na feira, no \u00f4nibus, na rua, nas lojas&#8230; as pessoas viram e falam &#8216;tem muito estrangeiro no bairro\u2026&#8217;, &#8216;por que voc\u00ea n\u00e3o volta pra sua terra?&#8217; ou &#8216;o governo t\u00e1 cuidando mais do imigrante do que do brasileiro&#8217;. A gente \u00e9 xingado, espancado, assaltado. As nossas casas s\u00e3o invadidas. Isso s\u00f3 tem aumentado.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Ela conta que, quando anda na rua com as roupas tradicionais do Congo, tem gente que acha que ela \u00e9 &#8220;macumbeira&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;J\u00e1 teve gente que fugiu de mim quando fui pedir uma informa\u00e7\u00e3o, mudou de banco no metr\u00f4, j\u00e1 teve motorista de \u00f4nibus que n\u00e3o parou&#8221;, diz Lina.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;De onde eu venho, racismo n\u00e3o existe. O Brasil foi para mim uma grande escola da discrimina\u00e7\u00e3o de seres humanos.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Os casos recentes de viol\u00eancia f\u00edsica contra imigrantes, como o de Mo\u00efse, s\u00f3 aumentam ainda mais a sensa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a entre os congoleses e outros imigrantes. &#8220;Tenho medo do futuro para os meus filhos&#8221;, afirma Lina.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 pela viol\u00eancia f\u00edsica, mas tem a psicol\u00f3gica tamb\u00e9m, porque a gente n\u00e3o tem os direitos mais b\u00e1sicos respeitados. Queria que o Congo tivesse paz para que eu pudesse voltar para a minha terra.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Karina Quintanilha diz que os crimes que v\u00eam a p\u00fablico s\u00e3o uma parte muito pequena parte dos que realmente est\u00e3o acontecendo por a\u00ed.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Nas conversas com os imigrantes, vamos achando novos casos que a gente nem imaginava. Teve um haitiano que morreu na empresa em que ele trabalhava, e sumiram com o corpo dele. Tem muito desrespeito a direitos trabalhistas, casos de trabalho escravo e tamb\u00e9m ofensas racistas. A viol\u00eancia \u00e9 cotidiana.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>A advogada diz que \u00e9 preciso rever a imagem do Brasil como um pa\u00eds da imigra\u00e7\u00e3o, porque os casos e relatos deixam claro que na pr\u00e1tica n\u00e3o \u00e9 assim.<\/p>\n\n\n\n<p>Lina, com a propriedade que sua experi\u00eancia lhe confere, resume bem o motivo: &#8220;O Brasil recebe, mas n\u00e3o acolhe&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p><em>*O nome da entrevistada foi trocado para preservar sua identidade.<\/em><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/640\/cpsprodpb\/1683C\/production\/_104602229_line976.jpg\" alt=\"L\u00ednea\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>J\u00e1 assistiu aos nossos novos v\u00eddeos no&nbsp;<\/strong><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/channel\/UCthbIFAxbXTTQEC7EcQvP1Q\">YouTube<\/a><strong>? 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