A PERSEGUIÇÃO AOS BOLSONAROS

A incomoda imagem ainda que preso

Falar da fuga de Flávio Bolsonaro já foi amplamente divulgado. O episódio deixou, entre seus apoiadores, a sensação de que a família Bolsonaro está sendo perseguida politicamente. Não estamos falando de um grupo eleitoral insignificante: Jair Bolsonaro recebeu 58,2 milhões de votos no segundo turno das eleições de 2022, quase metade dos votos válidos. É um contingente expressivo de brasileiros que merece ser considerado no debate nacional.

Entretanto, alguns fatos me chamam particularmente a atenção.

Primeiro: a rapidez com que foi determinada a apreensão dos passaportes de um senador da República e candidato derrotado à Presidência, por decisão judicial de natureza cautelar. É legítimo questionar os fundamentos, a proporcionalidade e a oportunidade dessa medida, sobretudo diante da ausência de condenação criminal definitiva do parlamentar.

Segundo: a origem da decisão. Ela partiu do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, cuja atuação vem sendo alvo de questionamentos políticos e de diversos pedidos de impeachment no Senado. São 55 pedidos noticiados até setembro de 2026. Isso, por si só, não significa que o ministro esteja prestes a perder o cargo, mas demonstra a dimensão da controvérsia institucional em torno de sua atuação.

Terceiro: a eficiência do cumprimento da ordem judicial. A Polícia Federal havia solicitado as medidas cautelares, e os passaportes brasileiros foram cancelados. Entretanto, Flávio conseguiu deixar o território nacional pela fronteira terrestre com a Argentina, sem passar por um posto de controle migratório brasileiro. A própria PF informou que investiga as circunstâncias da saída. Fica uma pergunta inevitável: de que adianta estabelecer restrições judiciais se o sistema de controle de fronteiras não consegue impedir uma saída nessas circunstâncias?

Quarto: a contradição entre a reconhecida dificuldade do Brasil em controlar suas fronteiras, por onde circulam drogas, armas e mercadorias ilegais, e a incapacidade de impedir a saída de um parlamentar que estava expressamente proibido de deixar o país. Não se trata de equiparar situações, mas de questionar a eficiência do aparato de fiscalização nacional.

Quinto: será que a família Bolsonaro é tão politicamente ameaçadora assim? Os resultados eleitorais demonstram que seu capital político continua expressivo. Nas eleições de 2026, quatro integrantes da família conquistaram vagas no Congresso Nacional: Michelle e Carlos Bolsonaro, para o Senado, e Jair Renan e Renato Bolsonaro, para a Câmara dos Deputados. Flávio, por sua vez, chegou ao segundo turno da disputa presidencial.

E aqui há um dado que merece destaque: Flávio Bolsonaro recebeu 59.826.041 votos, superando os 58.206.354 votos que seu pai, Jair Bolsonaro, havia recebido no segundo turno de 2022. São 1.619.687 votos a mais, um crescimento de aproximadamente 2,78%. Ou seja, mesmo sem conquistar a Presidência, Flávio ampliou a votação familiar em relação à eleição anterior.

É muita força política para uma família que, segundo seus adversários, já não teria expressão eleitoral. Na política, entretanto, parece que o problema não é apenas ter votos, mas ter votos suficientes para incomodar.

Jair Messias Bolsonaro, mesmo cumprindo pena, manteve influência eleitoral suficiente para conduzir seu filho Flávio ao segundo turno da eleição presidencial. A derrota nas urnas não apaga essa realidade.

Quanto às alegações de fraude eleitoral, é necessário distinguir suspeitas, denúncias e provas: até o momento, não há comprovação judicial de fraude que tenha alterado o resultado da eleição.

No fundo, a questão que permanece é maior do que a própria família Bolsonaro: até que ponto o exercício do poder institucional pode se confundir com disputas políticas?

Uma democracia não se mede apenas pela liberdade de quem governa, mas também pela garantia de direitos de quem faz oposição.

Agenor Candido Gomes